Achei uma carta no sótão, uma vez, que dizia:
"Nova York, 14 de fevereiro de 1946.
Não consigo dormir, pela última vez.
Um choro de criança no quarto ao lado me despertou da minha insônia, novamente. É tão difícil me deitar sem ter sono, e depois de cinco momentos indefinidos algo indistinto te interromper até da frustração daquele instante... nem sofrer posso. Interessante quando se pára para pensar: um choro de criança começa a preceder um tiro quando se acostuma com tal rotina, e faz você mesmo querer apertar o gatilho quando não se ouve o estalo pela primeira vez em meses. Quase sinto falta dos barulhos das bombas...
Deveria agradecer que tenho uma cama e uma vista para o mar, agora. Passei quase seis meses dormindo em terra fofa cavada por explosões de minas ou por colegas que por lá ficaram vivos, ou Deus sabe como, logo depois de ser submetido a uma forma de submissão tão indignante quanto se possa imaginar. Não me lembro dos nomes de nenhum dos meus amigos de trincheira também, mesmo porque nunca fui bom em decorar. Talvez por isso sempre tive que aprender, e a grosso modo me era desvantajoso; o outro método mais fácil me era inútil. Há uns meses atrás, quando cheguei aqui neste ínfimo quarto, ainda pensava em sair e me tornar um professor, dentista ou advogado... qualquer profissão que minha mãe considerava boa. Minha mãe, ah, como sinto a falta dela! Talvez tenha sido o único amor verdadeiro que já tive... Li, certa vez, em algum livro ou coisa assim (não me lembro do nome - mas que surpresa...) que "todas as coisas que aprendemos de nossos pais como 'boas' geralmente são ruins", e é, não de todo, mas verdade. Meu pai queria que eu fosse para as forças armadas porque me tornaria "um homem digno das calças que visto" (no mesmo instante que olhava com desgosto aos meus músculos atrofiados pela leitura&pacacidade de vida) e, no entanto, ainda choro como uma garotinha quando me lembro do passado que fui forçado a deixar de lado para vir aqui defender uma causa que não é minha. Não quero mais ser professor ou dentista, nem mesmo advogado. Agora tenho músculos.
Estou registrando isso por volta das quatro da manhã. Estou longe de casa e está frio, muito frio. Preferi, de início, não ter contato com minha família. Imagino se alguém, além de minha mãe, sente minha falta. Minha mãe está doente, louca. Nem mesmo sei dizer se ela sabe o que é se importar, quase não fala. Decidi-me, ao pensar nisso pela manhã - como sendo a saída plausível menos dolorida - a me suicidar. Tenho tudo preparado e, de certa forma, parece-me que este quarto foi feito para tal: tem uma viga central e um rolo de cordas grossas jogado num canto, com um nó na ponta - provavelmente usada por um pescador ou como suporte, não sei (talvez até mesmo para este mesmo fim ao qual a usarei). Sei que vi acontecer antes diante dos meus olhos, e sei, portanto, como executar-me com perfeição. Nunca pensei que estaria suscetível ao mesmo fracasso de tantos outros que intitulei como tolos e fracos ao longo do tempo, mas parece-me que, ao final das contas, é melhor do que morrer um campo de batalha sendo baleado numa artéria e sangrar até não se poder mais ou ter sua perna decepada por uma ínfima granada e não ter ninguém para lhe ajudar. É fato que estou, por agora, fora de serviço e me sinto sortudo de estar ileso fisicamente, mas sei que logo vou ser chamado de volta às armas, porque nosso país tem a terrível tendência de brigar com os outros por motivo algum, a qualquer hora - e posso não ser tão sortudo dessa vez. Não consigo voltar para aquilo, mas também não posso fugir. Seja lá quem estiver lendo isso, digo-lhe: enforquei-me para salvar a vida aquele bebê do quarto à minha esquerda, que chora todas as noites freneticamente e que a mãe tenta desesperadamente acalmar-lhe os ânimos sempre com a mesma irritante canção de ninar, e para salvar minha alma de tal destino e ter qualquer fim eterno de grande pena. Juro que empunhei várias vezes meu revólver com o intuito de arrancar-lhe os miolos para fora em frente à sua mãe só para demonstrar que não o quero chorando, e prefiro morrer a ter prazer em executar tal barbárie.
Se tiver a chance de ler isto, minha amada Ana, me desculpe por não ter conseguido voltar a seu encontro, como prometi tão fervorosamente. Digo-lhe que jamais te esqueci, jamais, em qualquer momento. Serás o último e único pensamento que terei, e por isso, morro feliz. Peço que sonhe comigo, e não reze; rezar não lhe fará nenhum bem."
"Nova York, 14 de fevereiro de 1946.
Não consigo dormir, pela última vez.
Um choro de criança no quarto ao lado me despertou da minha insônia, novamente. É tão difícil me deitar sem ter sono, e depois de cinco momentos indefinidos algo indistinto te interromper até da frustração daquele instante... nem sofrer posso. Interessante quando se pára para pensar: um choro de criança começa a preceder um tiro quando se acostuma com tal rotina, e faz você mesmo querer apertar o gatilho quando não se ouve o estalo pela primeira vez em meses. Quase sinto falta dos barulhos das bombas...
Deveria agradecer que tenho uma cama e uma vista para o mar, agora. Passei quase seis meses dormindo em terra fofa cavada por explosões de minas ou por colegas que por lá ficaram vivos, ou Deus sabe como, logo depois de ser submetido a uma forma de submissão tão indignante quanto se possa imaginar. Não me lembro dos nomes de nenhum dos meus amigos de trincheira também, mesmo porque nunca fui bom em decorar. Talvez por isso sempre tive que aprender, e a grosso modo me era desvantajoso; o outro método mais fácil me era inútil. Há uns meses atrás, quando cheguei aqui neste ínfimo quarto, ainda pensava em sair e me tornar um professor, dentista ou advogado... qualquer profissão que minha mãe considerava boa. Minha mãe, ah, como sinto a falta dela! Talvez tenha sido o único amor verdadeiro que já tive... Li, certa vez, em algum livro ou coisa assim (não me lembro do nome - mas que surpresa...) que "todas as coisas que aprendemos de nossos pais como 'boas' geralmente são ruins", e é, não de todo, mas verdade. Meu pai queria que eu fosse para as forças armadas porque me tornaria "um homem digno das calças que visto" (no mesmo instante que olhava com desgosto aos meus músculos atrofiados pela leitura&pacacidade de vida) e, no entanto, ainda choro como uma garotinha quando me lembro do passado que fui forçado a deixar de lado para vir aqui defender uma causa que não é minha. Não quero mais ser professor ou dentista, nem mesmo advogado. Agora tenho músculos.
Estou registrando isso por volta das quatro da manhã. Estou longe de casa e está frio, muito frio. Preferi, de início, não ter contato com minha família. Imagino se alguém, além de minha mãe, sente minha falta. Minha mãe está doente, louca. Nem mesmo sei dizer se ela sabe o que é se importar, quase não fala. Decidi-me, ao pensar nisso pela manhã - como sendo a saída plausível menos dolorida - a me suicidar. Tenho tudo preparado e, de certa forma, parece-me que este quarto foi feito para tal: tem uma viga central e um rolo de cordas grossas jogado num canto, com um nó na ponta - provavelmente usada por um pescador ou como suporte, não sei (talvez até mesmo para este mesmo fim ao qual a usarei). Sei que vi acontecer antes diante dos meus olhos, e sei, portanto, como executar-me com perfeição. Nunca pensei que estaria suscetível ao mesmo fracasso de tantos outros que intitulei como tolos e fracos ao longo do tempo, mas parece-me que, ao final das contas, é melhor do que morrer um campo de batalha sendo baleado numa artéria e sangrar até não se poder mais ou ter sua perna decepada por uma ínfima granada e não ter ninguém para lhe ajudar. É fato que estou, por agora, fora de serviço e me sinto sortudo de estar ileso fisicamente, mas sei que logo vou ser chamado de volta às armas, porque nosso país tem a terrível tendência de brigar com os outros por motivo algum, a qualquer hora - e posso não ser tão sortudo dessa vez. Não consigo voltar para aquilo, mas também não posso fugir. Seja lá quem estiver lendo isso, digo-lhe: enforquei-me para salvar a vida aquele bebê do quarto à minha esquerda, que chora todas as noites freneticamente e que a mãe tenta desesperadamente acalmar-lhe os ânimos sempre com a mesma irritante canção de ninar, e para salvar minha alma de tal destino e ter qualquer fim eterno de grande pena. Juro que empunhei várias vezes meu revólver com o intuito de arrancar-lhe os miolos para fora em frente à sua mãe só para demonstrar que não o quero chorando, e prefiro morrer a ter prazer em executar tal barbárie.
Se tiver a chance de ler isto, minha amada Ana, me desculpe por não ter conseguido voltar a seu encontro, como prometi tão fervorosamente. Digo-lhe que jamais te esqueci, jamais, em qualquer momento. Serás o último e único pensamento que terei, e por isso, morro feliz. Peço que sonhe comigo, e não reze; rezar não lhe fará nenhum bem."

